4 de maio de 2009

TRAB LITERATURA AFRICANA DE EXPRESSÃO PORTUGUESA





LITERATURAS AFRICANAS DE EXPRESSÃO PORTUGUESA


As aventuras navais dos portugueses do século XV espalharam o idioma por quatro continentes, entre eles o africano, um continente marcado historicamente pela disputa entre tribos rivais, esta eterna discórdia interna fez da áfrica uma “colcha de retalhos” criando países pobres e de pouca representatividade no mundo moderno. Nos países em que Portugal, como colonizador, explorou por algum tempo, levando muitas de suas riquezas, deixou, mesmo que sem querer uma herança que “conecta” mais de 35 milhões de habitantes africanos á oitava língua mais falada no mundo: o português. Neste trabalho mostrarei um pouco da literatura em língua portuguesa em dois destes países, Angola e Moçambique.




ANGOLA


Angola é um jovem país de 34 anos, é também o segundo maior falante de língua portuguesa no mundo, tem sua historia marcada por momentos de repressão e por um período de colonialismo extensamente longo, só possível de acontecer graças ao incrível índice de analfabetismo, herdado do colonialismo português. Sua literatura em língua portuguesa passou por períodos de pouca criatividade, devido a falta de pessoas escolarizadas e capazes de criar um literatura atuante (97% da população analfabeta) até que em 1948 alguns dos 3% da população alfabetizada resolveram voltar seus olhos e sua atenção ao maior país africano de língua portuguesa e lançaram em Luanda, capital do país, o brado “vamos descobrir angola”.
Este “brado”, pode ser visto como o choro de um bebê ao nascer, no caso nasceu a literatura de um país, e os pais e mães eram os membros do Movimento dos Novos intelectuais de Angola que em 1950 “registram” definitivamente a certidão de nascimento desta literatura com a publicação de “antologia dos novos poetas de Angola”.
Em 1951 a Associação dos naturais de Angola, (ANAGOLA, em língua quibunda, “Filhos de Angola”) que provavelmente teve como membros muitos dos ‘novos intelectuais’ lança a revista Mensagem que dura até 1952 com apenas 4 exemplares, numero suficiente para criar um clima propício ao desenvolvimento da literatura angola. Em 1957 este mesmo grupo lança outra revista, agora com o nome Cultura, mantém os mesmos ideais da anterior e revela poetas significativos para mostrar a angolanidade, natural do povo e até então distante de sua criação literária.
Toda esta efervescência culminou na criação do MPLA, movimento popular de libertação de Angola, que foi decisivo na independência do país.
Este momento cultural angolano influenciado pelo momento histórico é marcado pela descoberta do sentido de ser do povo angolano, que passa a sua valorização e exaltação, com o movimento negritude e culmina nos temas ligados a exploração econômica, repressão policial o que leva o africano a pegar em armas e lutar pela independência. Todos este processo dura em torno de 12 anos de a948 a 1960, quando então começa um novo momento na literatura de Angola.
Começa a luta armada em 1961 e a revista Cultura esta em plena ação, animando os guerrilheiros com sua temática nacionalista o que faz a repressão portuguesa do ditador Salazar endurecer ainda mais, culminando com o encerramento das atividades da revista, junto com ela o governo colonial português fechou tudo que pudesse distribuir ideais de independência angolana.
Porem estes fechamentos não conseguem matar a literatura de angola que resiste e se fortalece através de autores como Luandino Vieira e de obras como “Luuanda e nós” e “Makulusu. O poeta escreve até certo tempo em português europeu, formal e culto, a parti de 1962 provavelmente como forma de mostrar que Angola não era só o que os colonizadores trouxeram em forma de cultura ele mistura os sentidos do português padrão com a língua quibunda, existente em angola há séculos e cria neologismos e gírias que são marcas da angolanização do português e provas da cultura do homem africano.
Entre os intelectuais africanos que mudaram a maneira de se entender o conceito de nação e foram decisivos na criação não só de uma nova literatura para o país, mas também para sua independência se destaca o poeta Agostinho Neto. Autor de “Sagrada Esperança”, obra que os historiadores comparam ao clássico “os Lusíadas”, de Camões (com ressalvas temporais, espaciais, culturais), Neto de forma épica, mostra toda a alienação social, cultural e política vivida pelo negro, exibe de forma clara a exploração econômica, a repressão policial,a prostituição, o alcoolismo, o analfabetismo e a miséria a qual é submetida toda uma população apenas por diferença de cor. Ele exalta a solidariedade, o trabalho a esperança e o amor como combustíveis que proporcionarão a este mesmo povo a força capaz de criar a revolução que levará o povo angolano a sua verdadeira identidade, a identidade de um povo livre.
Sua obra é dividida em três fases, a primeira tem momentos neo realistas e de valorização do povo negro (negritude) e vai de 1945 a1949. A segunda que dura de 1949 a 1955 ainda tem poucos momentos neo realistas, mas sua maior parte é totalmente dedicada a valorização do ser humano negro, em angola, na áfrica e em todo o mundo, dando especial atenção a solidariedade negra, mostrando que a cultura tribal africana de um negro lutar contra o outro sempre foi um grande erro. A última fase deste inesquecível poeta é marcada pela sua prisão, ele a usa como forma de inspiração e produz obras que incitam a liberdade e a independência do país, convocam os angolanos a lutarem a combaterem a ganharem a liberdade com as próprias forças.
Seu empenho é recompensado, o país liberta-se e ele torna-se merecidamente o seu primeiro presidente.



MOÇAMBIQUE


Embora separado de Angola territorialmente, Moçambique compartilha com o vizinho o fato de ter como idioma oficial a língua portuguesa, este país africano fica na costa oriental da áfrica austral e devido a sua formação geográfica faz fronteiras com muitos outros países, o que possibilita uma grande interação com muitos povos africanos. Sua literatura de língua portuguesa se mostra mais fértil nas décadas de 40 a 50 onde são publicados grande quantidade de textos em livros e jornais, todo este momentos é fruto da recente instalação da imprensa com a revista msaho e o jornal paralelo 20, ambos serviçais divulgadores das idéias anti-coloniais.
Com o fim da II grande guerra a literatura moçambicana adquire maturidade, os anos entre 1945 a 1952 foram decisivos para o inicio deste grau de qualidade. Uma característica forte é o segregacionismo moçambicano que extrapola de vez a razoabilidade separando de forma veemente todas as raças, forçando-os a formarem grupos separados. Como reação a esta visão ultrapassada do mundo, escritores e intelectuais formam grupos que a partir dos primeiros anos de 1950 publicam seleções a antologias com as idéias da negritude, pregando uma maior identidade nacional, sem distinguir raças, todos são moçambicanos. Junto a isso textos ligados ao neo realismo denunciam a péssima condição humana no país e funcionam como referencia para a conscientização da população.
Em 1964 inicia-se a fase de exortação a luta armada para a independência do país, a temática glorifica a revolução e serve como base para textos anti-colonialistas. Na narrativa surge “nós matamos o cão-tinhoso” de Luis Bernardo Honwana que mostra de forma alegórica uma vitoria imposta ao colonizador pelos negros livres e capazes de dominar seu território.
Guilherme de Melo com raízes do ódio de 1963 e Orlando Mendes com Portagem de 1966 inauguram o romance moçambicano. Nesta partida impetuosa da literatura acontecem três vertentes importantes. A primeira é formada por escritores como José Craverinha, Orlando Mendes, Rui Nogar e Luís Bernardo Honwana e tem como herança um nacionalismo resultante de tendências de incorporação do pan-africanismo, com experiências neo realistas e negritudistas. São textos publicados de forma restrita em pequenos ghettos intelectuais.
A segunda, também publicada para um pequeno publico, tem como diferença fundamental o conteúdo que é basicamente inspirado nas grandes obras universais que vêem desde as antiguidades clássicas até a exaltação da cultura ocidental européia, seus nomes mais destacados são Rui Knopfli, Eu gênio Lisboa, João Pedro, Grabato Dias e Maria de Lourdes Cortaz.
A terceira vertente tem maior liberdade de publicação, esta quer atingir e chegar ao povo para incentivá-los a luta armada pela independência, é a temática de guerrilha que em forma de poesia espalha-se pelo povo. Aqueles que não sabem ler, ouve seus versos e saem cantando de armas nas mãos.
Já em 1971 surgem a revista Caliban que traz textos de excelente qualidade, este momento também é marcado pela volta de escritores, na maioria brancos que haviam saído da colônia, o que geral uma enorme leva de intelectuais que estão ligados a Moçambique mas também estão ligados também a Portugal pelo contato intenso entre pensamentos pro e anti coloniais, se encaixam neste momento nomes como os de Rui Knopfli, Glória de Sant’Anna, Guilherme de Melo, Jorge Viegas. Outros assumem sem reservas a cidadania moçambicana, como Mia Couto, Heliodoro Baptista e Leite de Vasconcelos.
Entre 1975 e 1992 acontece o fortalecimento da literatura moçambicana com a publicação de textos que estavam guardados, seja por motivos de repressão do colonizador, ou por falta de oportunidade de fazê-lo. Este processo consolida e dar uma maturidade definitiva ao ser moçambicano que passa a temas de exaltação da pátria, recém independente, cultos aos heróis da luta pela libertação nacional, temas doutrinários e militares. É importante lembrar que o novo governo também tentou controlar o que era publicado, sendo totalmente livre desta censura apenas os textos publicados fora do país.
Um poeta/jornalista moçambicano merece destaque em todo este processo de autoconhecimento e de libertação é José Craverinha, sobre o qual podemos analisar uma sequência de fases em suas obras. A primeira é marcada pelo neo-realismo e traz como tema a tradição popular e tribal, o ser humano é mostrado cheio de problemas e complicações, acontece o privilegio da mensagem sobre a forma, pois o objetivo do autor e conscientizar o leitor do seu real estado de vida.
A segunda é marcada pela negritude, a forma muda, os versos tornam-se longos e o texto enaltece o negro, as raízes africanas neles estão presente os sentimentos mais puros do autor, a revolta contra a escravidão em denuncias feitas de forma bastante agressivas. A terceira fase do artista traz a moçambicanidade, a identidade nacional do seu povo, nela a busca pelo que é de verdade o ser moçambicano, suas raízes, seus desejos e seu futuro de liberdade estão misturados de tal forma que aos lê-los se sente a força e a garra do homem de Moçambique.
Na quarta e ultima fase, escrita em parte na prisão acontece o paradoxo de ter como tema a libertação, são desta fase os livros chigubo (1964), karingana ua karingana (1974), Cela 1(1980) entre outros.
Termino este trabalho com um pequeno trecho do poema África de José Craverinha: “Em meus lábios grossos fomenta / A farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África / E meus ouvidos não levam ao coração seco / Misturado com o sal dos pensamentos / A sintaxe anglo-latina de novas palavras”.

Alem dos países descritos neste trabalho, no continente africano também falam a língua portuguesa: Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e São Tomé e Princípe.
Referências:

JARDIM Marcelo Rodrigues. Literatura Portuguesa III. Material Complementar Universidade Norte do Paraná, letras 7. São Paulo. Pearson Education do Brasil, 2009.

JOSE CRAVERINHA. Disponível em < http://lusofonia.com.sapo.pt/craveirinha.htm > Acesso 01 mai. 2009.

LITERATURA MOÇAMBICANA. Disponível em < http://lusofonia.com.sapo.pt/Mocambique.htm#periodiza%C3%A7%C3%A3o > Acesso 01 mai. 2009.

LUSOFONIA ANGOLA. Disponível em < http://www.lusoafrica.net/v2/index.php?option=com_content&view=article&id=59&Itemid=62 > Acesso 01 Mai .2009.

LUSOFONIA MOÇAMBIQUE. Disponível em < http://www.lusoafrica.net/v2/index.php?option=com_content&view=article&id=63&Itemid=66 > acesso 01 mai. 2009.

SONCELLA, Josely Bogo Machado. Literatura Portuguesa III. Universidade Norte do Paraná, letras 7. São Paulo. Pearson Education do Brasil, 2009.

TEXTO EDITORES UNIVERSAL. Língua portuguesa on-line. Disponível em <http://www.priberam.pt/dlpo.> Acesso em: 01 mai. 2009.

6 comentários:

  1. Adorei! Encontrei, aqui, até mais do que eu precisava. Voltarei a visitar esta pagina mais vezes, trabalhos de alta qualidade...

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  2. Parabéns! Um conteudo de qualidade.

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  3. Viegas ( via e-mail)21 de novembro de 2010 12:28

    A “Estação das chuvas” de Agualusa (1ª parte)

    Viegas Fernandes da Costa*

    “... a poesia surgiu entre a juventude como o mais óbvio caminho de afirmação cultural: ‘tiravam-nos tudo, a dignidade, as terras, os homens. E no fim o próprio rosto. (...) Tiravam-nos todo o passado e nós olhávamos em volta e não éramos capazes de compreender o mundo. Então começamos a escrever poesia. A poesia era o destino irreparável, naquela época, para um estudante angolano. (...) Os jovens poetas tinham a consciência do seu papel messiânico. ‘Escrevíamos para a história’. – Falas da personagem Lídia ao Narrador.
    O angolano José Eduardo Agualusa pode ser inserido na segunda geração de escritores africanos pós-coloniais. Ou seja, uma geração de autores que problematiza o projeto de identidade nacional, construído a partir dos processos de independência dos países africanos, em oposição a uma primeira geração, que tratava o tema sob uma perspectiva heróica e maniqueísta.
    Nascido em 1960, Agualusa estava adolescente quando Angola passou pelo tumultuado e complexo processo de independência política de Portugal, acontecida em novembro de 1975, e que jogou o país em uma guerra civil que perdurou até o ano de 2002. Portanto, quando publica “Estação das Chuvas”, lançado originalmente pela editora portuguesa Dom Quixote em 1996, Angola era um país devastado por uma guerra civil que confrontava o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Total Independência de Angola (UNITA). Outro grupo que protagonizou a disputa pela independência e pelo poder angolano foi a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA). Tais grupos político-militares alinhavam-se segundo os interesses internacionais próprios do contexto da Guerra Fria. Assim, enquanto o MPLA recebia apoio da União Soviética e de Cuba, Estados Unidos e África do Sul apoiavam a UNITA e a FNLA. Outros países, como Inglaterra, Zaire, Portugal e China também se envolveram no conflito. Não bastassem os diferentes interesses políticos, econômicos e ideológicos que significavam os diversos apoios internacionais aos movimentos de resistência nacionalista e/ou de guerrilha, a complexidade se manifestava dentro de cada grupo, já que não havia uma unidade ideológica. Se é possível afirmarmos que o MPLA representava o marxismo-leninismo, também é verdadeiro que este Movimento abrigava divergências poderosas em suas fileiras, o que acabava transformando aliados em inimigos. É neste contexto politicamente confuso do processo de independência angolano e seus desdobramentos que “Estação das Chuvas”, flertando com a historiografia e a ficção, situa sua fabulação. Assim como em um quadro cubista, onde a apreensão de uma realidade – cujos sentidos só nos permitem um conhecimento fragmentado – nunca é completa; também Agualusa nos dá a conhecer, indiciária e fragmentadamente, a história das lutas pela construção de uma identidade nacional angolana a partir dos relatos da personagem Lídia, poeta, historiadora e militante do MPLA que mesmo após o processo de independência, conheceu a prisão e o exílio. Relatos que nos chegam por meio da voz de um narrador, também personagem, também militante político do MPLA, que entrevistou Lídia e reuniu um pouco dos seus textos e correspondência. A narrativa de “Estação das Chuvas” constrói-se, portanto, de uma forma não linear, fragmentada, ora nos indícios legados por Lídia, ora nas rememorações do Narrador, ora nos diálogos dos demais personagens, e o quadro desdobrado ante os olhos do leitor torna-se assim multifacetado, próprio de uma nação construída à força das balas e do discurso. Principalmente à força do discurso, pantanoso, móvel, mas consciente de que um país nasce muito mais da palavra do que do concreto armado.

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  4. Viegas ( via e-mail)21 de novembro de 2010 12:32

    A “Estação das chuvas” de Agualusa(2ª parte)

    Viegas Fernandes da Costa*

    Nesta perspectiva da palavra, de uma nação que se constrói a partir do discurso (ou dos discursos), José Eduardo Agualusa, em “Estação das Chuvas”, propõe a reflexão para além do político-ideológico, abrangendo o identitário, não apenas nacional, bem como o étnico, e o papel dos intelectuais nesse processo, tal qual apresentado na epígrafe com que iniciamos este texto. Lídia – a personagem – tinha consciência do seu papel enquanto intelectual engajada cuja função era produzir documentos artísticos que pudessem testemunhar a construção de uma nação, apesar de tudo, híbrida. De um hibridismo que conflitava com muitos dos discursos nacionalistas, racializados que eram. É nesta perspectiva que a personagem, quando convidada a participar de uma antologia intitulada “Caderno de poesia negra de expressão portuguesa”, responde: “Aquilo que eu escrevo não tem especialmente a ver com o mundo negro. Tem a ver com o meu mundo, que é tanto negro quanto branco. E sobretudo é o meu mundo! Se quiseres incluir trabalhos meus muda o nome da antologia para ‘Caderno de poetas negros’, mas ainda assim será um disparate, como fazer um ‘Caderno de poetas altos’ ou uma ‘Coletânea de poesia de mulheres obesas’.” E a consciência de Lídia a respeito do hibridismo cultural de que é consequência, em si e de seu país, torna-se ainda mais claro quando afirma: “todos nós pertencemos a uma outra África que habita também nas Antilhas, no Brasil, em Cabo Verde ou em São Tomé, uma mistura da África profunda e da velha Europa colonial. Pretender o contrário é uma fraude.”
    Se, por um lado, Agualusa apresenta uma personagem consciente de seu hibridismo, por outro reconhece a existência de protagonistas que se pretendem “puros” ou, ainda, personagens que poderíamos qualificar na condição de “colonizadores de boa vontade”. O “colonizador de boa vontade” (conceito desenvolvido pelo escritor tunisiano Albert Memmi) reconhece o direito à autodeterminação de uma nação colonizada, e até luta por este direito; entretanto, será sempre um colonizador. Em “Estação das Chuvas” o personagem Mário de Andrade desconfia dos angolanos brancos, no que era acompanhado por Lídia. Segundo o narrador, “ambos sabiam que os brancos gostavam de participar nas iniciativas culturais, mas só até um certo ponto, e raramente estavam dispostos a prescindir dos seus privilégios de raça e de classe” – são estes angolanos brancos identificados na condição de “colonizadores de boa vontade”.

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  5. Viegas ( via e-mail)21 de novembro de 2010 12:33

    A “Estação das chuvas” de Agualusa (3ª parte)

    Viegas Fernandes da Costa*


    Também os defensores de uma identidade cultural não hibridizada são retratados por Agualusa, que os ironiza, como no caso de Antoine Ninganessa. Segundo o narrador, Antoine “estava sempre a dizer que as pessoas deviam deixar de imitar os brancos e ninguém devia vestir calças ou camisas, ninguém devia comer em pratos de alumínio, ninguém podia utilizar papel higiênico. As vezes exaltava-se e gritava que era preciso fazer tudo ao contrário dos portugueses. E então ele dava o exemplo e começava a andar para trás, como um caranguejo, ou sentava-se numa cadeira com as pernas dobradas ao contrário e virava a cabeça para as costas e falava não pela boca mas pelo ânus”. A força da ironia no trecho que apresentamos aqui torna clara a posição do autor José Eduardo Agualusa a respeito do seu entendimento de identidade cultural. Lídia, a escritora híbrida que, entretanto, não se descuida do seu papel ante a construção de uma nação, é a heroína da história.
    “Estação das chuvas” é um romance típico de seu tempo e contexto. Discute uma Angola que se procura construir e afirmar à luz de uma unidade artificialmente construída pelas mãos europeias e, justamente por este seu aspecto sociológico, sem entretanto se tornar panfletário (longe disso), merece leitura atenta e o coloca na estante de uma literatura pós-colonial que, se não pretende oferecer respostas, problematiza e estimula o debate.

    * Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor. Autor dos livros “Pequeno álbum” (2009), “De espantalhos e pedras também se faz um poema” (2007) e “Sob a luz do farol” (2005). Permitida a reprodução deste texto, desde que citado o autor e mantida a íntegra.

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  6. muito bom
    exatamente o que eu precisava!!!
    :)

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